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Qual é a relação entre o consumo de carne e a desflorestação?

26 julho 2023

Artigo disponível em:

Qual é a relação entre o consumo de carne e a desflorestação?

Atualizado em novembro de 2024

Como é que a carne afeta as alterações climáticas?

A carne afeta as alterações climáticas porque a sua produção e consumo contribuem significativamente para a crise climática. A indústria da carne é responsável por uma grande parte das emissões globais de gases com efeito de estufa (GEE), principalmente dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, causadas sobretudo pela alteração do uso do solo (incluindo a desflorestação), pelas emissões provenientes do gado e do estrume, pela produção de rações e pelo transporte.  

A produção de carne também requer grandes quantidades de terra, água e energia para sustentar todo o seu processo — desde o desmatamento para pastagem e produção de rações até ao transporte e processamento —, contribuindo para a desflorestação, a escassez de água e a perda de biodiversidade.

Comer menos carne ajuda o ambiente? 

A pegada ambiental dos alimentos que come está intimamente ligada à forma como são produzidos. Em geral, é, portanto, melhor comer mais alimentos de origem vegetal, cuja produção requer menos terra do que a carne e os laticínios. A pecuária é responsável por 57% de todas as emissões da produção alimentaro dobro da quantidade produzida pelos alimentos de origem vegetal — mas fornece apenas 18% das calorias mundiais e 37% da proteína total. No entanto, continua a ser importante garantir que os alimentos à base de plantas são produzidos localmente e não cultivados em terras que tenham sido recentemente desflorestadas. Escolher essas alternativas à base de plantas ou carne biológica e produzida localmente em vez de carne processada importada também apoia os agricultores familiares locais.

De que forma a indústria da carne contribui para a desflorestação?

A produção de carne bovina é o maior fator agrícola responsável pela perda global de florestas, representando 36% de toda a perda de cobertura arbórea associada à agricultura. No Brasil, onde ocorre um terço do desmatamento tropical global, 72% da perda de florestas é impulsionada pela pecuária.  

A destruição florestal impulsionada pela pecuária concentra-se principalmente na América do Sul, nomeadamente no Brasil, mas também no Paraguai, na Argentina, na Bolívia, na Colômbia e noutros países. 

A indústria da carne também contribui para a desflorestação através da expansão do cultivo de soja para exportação como ração animal. A expansão constante da pecuária e da soja para novas áreas de terra está também a impulsionar a apropriação de terras, com os pequenos agricultores e as comunidades em toda a América do Sul a serem prejudicados.

O consumo de soja na UE está a causar desflorestação?

Embora o cultivo de soja seja um dos maiores fatores de desflorestação a nível mundial, a soja produzida industrialmente raramente é utilizada como substituto do leite e da carne: cerca de 75% da soja mundial é utilizada para ração animal. Para satisfazer esta procura crescente, vastas áreas de florestas e outros ecossistemas são desmatadas para dar lugar a plantações de soja. Muitas vezes, estas terras foram roubadas às comunidades locais que delas dependiam para a sua subsistência. 

Na UE, cerca de 90% da soja é utilizada para alimentar animais destinados à produção de carne, ovos, peixe e produtos lácteos. Poderia ser substituída pelo pastoreio em pastagens locais e complementada com mais milho produzido localmente.

A produção de carne está a diminuir?

A produção global total de carne é hoje cinco vezes superior à de há 50 anos, ascendendo a 352 milhões de toneladas por ano, apesar de uma ligeira diminuição no consumo per capita de carne nos últimos anos.  

Os europeus e os americanos consomem, respetivamente, 80 e 110 quilos por pessoa por ano; na América Latina, a produção de carne é responsável por uma desflorestação maciça, mas grande parte é consumida localmente, como na Argentina, onde o consumo também é de 110 quilos por pessoa, por ano. Entretanto, nos últimos 50 anos, verificou-se um aumento de 15 vezes no consumo de carne na China. 

Prevê-se que o consumo global de carne aumente 14% até 2030, aumentando as emissões do setor da carne em 5%. Este rápido aumento deve-se, em parte, ao rápido crescimento populacional a nível mundial, mas a produção de carne cresceu duas vezes mais rápido do que a população global desde 1961.

Como pode a UE ajudar a reduzir a produção de carne e a proteger as florestas e as comunidades?

A UE é o segundo maior importador mundial de produtos agrícolas que causam desflorestação, a maioria dos quais está ligada ao setor da carne e dos laticínios. O Regulamento da UE sobre a Desflorestação (EUDR), adotado em 2023, proíbe a importação para o mercado da UE de produtos agrícolas associados à desflorestação, incluindo soja, carne de bovino e a maioria dos produtos deles derivados. 

A UE precisa de complementar isto com políticas e leis que regulamentem a agricultura e os sistemas alimentares, que possam potencialmente ajudar a reduzir o consumo de carne, uma vez que tal teria um impacto positivo no ambiente, nos meios de subsistência dos pequenos agricultores e na saúde dos consumidores da UE.

Até agora, as políticas da UE centraram-se principalmente na produção agrícola através da Política Agrícola Comum (PAC), que absorve um terço do orçamento total da UE e oferece principalmente subsídios aos agricultores industriais em toda a UE. Mais resultados poderiam ser alcançados através de outras políticas, como a Estratégia «Da Quinta à Mesa» (F2F), que inclui diferentes iniciativas políticas, tais como a Lei-Quadro sobre Sistemas Alimentares Sustentáveis (SFSL), para a qual se espera uma proposta legislativa em 2023; o Código de Conduta da UE, que entrou em vigor em 2021; a Iniciativa de Agricultura de Carbono; e novas regras para harmonizar a rotulagem da UE em matéria de nutrição, sustentabilidade e bem-estar animal.

Categorias: FAQs, Meat consumption

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